sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um poema chamado "Lama e Folhas"? (por Marcos Lima)


Fato é que o escritor Moreira Campos é considerado um dos maiores contistas do Ceará e também da história do gênero em nosso país. Mas este pequeno artigo, escrito meio entre o científico e o informal, pretende levantar alguns questionamentos sobre a obra deste escritor, questionamentos estes que vão nos ajudar a ir além da fronteira dos gêneros e a olhar o autor como mais do que apenas um contista.


Dentro da obra de Moreira Campos encontramos um livro de poemas, Momentos (1976), como uma obra teoricamente isolada em meio ao grande número de obras em prosa do autor. Mas este momento lírico teria realmente ficado circunscrito a um livro? A abordagem psicológica dos personagens e situações, frequentemente colocada como uma das principais características de seus contos, não se daria justamente por uma mistura de gêneros que possibilitaria por meio do lírico perscrutar os ambientes psicológicos que o movimento lógico da prosa não permite?

Para além da questão da literariedade, já colocando o texto de Moreira Campos obviamente na lavra dos textos literários e não tratando do que o torna literário que não é a questão a ser abordada aqui neste estudo, as questões acima são proposições sobre os limites dos gêneros literários dentro dos textos de Moreira, tema que vamos abordar na sequência. Para tanto, escolhi como exemplo um dos contos mais conhecidos do escritor, Lama e Folhas, para estudarmos a sua linguagem e os limites entre os gêneros nesta obra.

Antes de analisarmos o texto em si, recuperemos aqui uma noção sobre textos poéticos. O poeta Décio Pignatari, ao analisar a comunicação dita poética, retoma para si os conceitos de outro poeta, Ezra Pound, para a divisão de tipos de poemas em fanopeia, melopeia e logopeia. Na fanopeia, a predominância fica com as imagens; na melopeia, o destaque maior vai para a sonoridade e os poemas que se encaixassem na logopeia tenderiam mais para a prosa pela similaridade estar rumando à contiguidade (2005).

Desta forma, proponho agora um exercício de leitura com um trecho do conto Lama e Folhas da forma como está disposto:

Lama e Folhas

Acredito que sonhei.
A sensação é de pesadelo.
Névoa outra vez
e um grande peso que me esmaga.
Luto por afastá-lo,
sinto os músculos cansados
e a tentativa é vã.
As janelas do quarto estão abertas,
sopra o vento
e há arrepios na noite,
mas as paredes me sufocam.
(...)
Como a noite é fria!
Há gritos,
ruídos que vem de fora,
soluços que se derramam
no silêncio.
Águas, lodo...
lama e folhas...
lama e folhas...
(MOREIRA CAMPOS, p.19)

O texto acima representa dois excertos do final do conto de Moreira Campos, expostos em estrofes tal como se fosse um poema. Tal como está, um leitor sem o conhecimento prévio de que este é um texto em prosa que faz parte da conclusão de um conto, certamente poderia lê-lo e interpretá-lo assim como está, de maneira independente, como sendo de fato um poema. Poderíamos pensar que isso se trata de um fenômeno de superinterpretação, mas certamente esta definição não se enquadra aí. O que temos está mais para uma linguagem em prosa, portanto próxima da logopeia, Pound via Pignatari, e cujos efeitos se dão porque o cuidado que o narrador tem ao descrever as imagens dá ao seu relato um trabalho não com a língua apenas, mas sobre a língua – trabalho este que é próprio do uso da função poética da linguagem (JAKOBSON, 2008).

Assonâncias, aliterações (o som do ‘s’ sibilando por todo o trecho), repetições de palavras e metáforas são recursos não exclusivos da linguagem poética - aparecem também na prosa e inclusive na linguagem publicitária –, mas que carregados de sentido e acumulados como aparecem no texto, aumentam o caráter lírico do relato. Ainda em Pignatari temos: Mostrar um sentimento e não dizer o que ele é – isto é poesia (2005, p.51). Não precisamos ler o conto todo, mas acompanhando estes dois trechos que foram dispostos aqui, podemos notar a angustia e o sentimento de impotência diante do destino que estariam em tese sendo colocados por um eu lírico. Os trechos nos despertam esta disposição anímica (STAIGER, 1993) de forma independente e aos que conhecem o enredo da narrativa, podem constatar que é exatamente esta a sensação do narrador diante da perda do filho que é retratada nestes trechos teoricamente apenas narrativos dentro do conto.

Por fim resta a dúvida? Narrativa? Poema em prosa? Afinal, contista ou poeta? Escritor. Um homem das letras por definição. Moreira Campos não se encaixa nas definições mais restritas, cabe-lhe melhor o conceito amplo. Que não se veja o autor como quem olha a Rua Floriano Peixoto e vê ao longo dela o início da Praça do Ferreira. Melhor é enxergar Moreira Campos tal como alguém do alto de um dos prédios da Avenida Duque de Caxias alongando o seu olhar até o mar da Praia de Iracema. Moreira é, como toda a boa literatura, amplo demais para caber numa rua, sua obra se estende ao infinito do mar.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOSI, Alfredo. Reflexões sobre a arte. 7.ed. São Paulo: Ática, 2000.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: Literatura e senso comum. 2.ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
JAKOBSON, Roman. Linguística e poética. In: _____. Linguística e Comunicação. 27.ed. São Paulo: Cultrix, 2008.
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A quinzena ao caos portátil. Fortaleza: Imprence, 2008.
MOREIRA CAMPOS. Dizem que os cães veem coisas. 4.ed. Fortaleza: Editora UFC, 2002.
PIGNATARI, Décio. O que é comunicação poética. 8.ed. Cotia: Ateliê, 2005.
STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993.

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